2021-22

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Corpúsculo: uma paisagem performativa

A criação artística Corpúsculo fundamenta-se no Atomismo, uma conceção filosófica que se desenvolveu na Antiga Grécia pelos filósofos Demócrito e Epicuro que teorizaram sobre a natureza se confirmar por dois princípios fundamentais: “átomo” e “vazio”. 

Daí, estabelecem-se relações simbólicas com o conto Nós, Arquipélago de Rui Cerqueira Coelho, através de uma oscilação entre passado-presente para registar "uma memória”, um processo de descoberta interior, provocado pelas disrupções de um percurso.

Os átomos filosóficos – elementos que constituem a realidade - formam-se por uma variedade infinita de formas e tamanhos, elementos básicos da realidade, partículas de matéria indivisíveis, imutáveis e indestrutíveis que se movem no espaço... Também a verdade da ação artística se revela uma combinação de continuidade e de descontinuidade: planos finitos e infinitos que não hesitam em desafiar os corpos, dinâmicos e deambulantes, a encontrar os seus pontos de coerência e equilíbrio, (des)construídos através da absorção ou da rejeição dos núcleos, individual ou coletivo, para interagir através do isolamento ou da integração. 

Os conteúdos artísticos, provocados e gerados nesta ação performativa, formalizaram-se como um incentivo para um maior sentido crítico: um olhar esclarecido, mas intuitivo, que se revela através do tema e das suas conceções. A individualidade e a coletividade, análogas a ilha e arquipélago, surgem como contraste entre as (inter)ações e (inter)conexões que evoluem e se transformam ao longo da narrativa. Combinando lugar - humano - contexto - tempo - espaço, através de uma materialização efémera entre o som e o movimento, surge uma simbiose de corpos atuantes que interpela uma abordagem antropológica que se relaciona no e com o espaço pessoal e o espaço social, na procura de uma (re)ação identitária entre o “individual” e o desejado como o “coletivo”.  

Corpúsculo evolui através de um percurso sensível, gerador de estímulos empáticos e reveladores de uma identidade emergente num espaço vivido e sentido por memórias e imaginários. É um registo de um legado de se ser mais integrador e indefetível na busca de uma aparente e total simplicidade de (ser) Ser Humano. 

 

Gisela Rebelo de Faria

 

 

Habitar um espaço

O que carrega o individuo quando habita um lugar? O corpo na sua circunstância. 

Mas o lugar, tal como o indivíduo, tem um nome, uma missão e um tempo para legitimar a sua forma. 

O exercício de colocar hoje dois corpos a interagir e a habitar um espaço de outro tempo, merece cuidado nos gestos e nas ideias: da mesma forma que se atenta nas maneiras de revisitar o passado, semelhante preocupação surge para o corpo que habita um espaço com os seus movimentos. 

A ponderação artística entre o individual e o coletivo, a vivência em comunidade e o isolamento, são assuntos naturalmente pertinentes nos dias correntes.  Consequentemente, os moldes de exploração transdisciplinares, focados na relação entre a arquitetura, a coreografia e a paisagem sonora, acrescentaram uma camada de consciência coletiva ao objeto artístico. A conceção coreográfica foi claramente influenciada por estes processos exploratórios, desde a disposição espacial, ao toque, sendo necessário uma atenção ao todo, em cada momento.

As ruínas do mosteiro de Santa Maria das Júnias e do Castro de Santa Tecla são retratos e memórias de um tempo já findo, onde a palavra cedeu ao silencio, onde o último movimento foi interrompido com a partida deste ou com a descida daquele ao túmulo. O espaço é hoje visitado quase como um lugar-museu: quem o visita pode contemplar o método e o estilo da arquitetura da época, como ainda, entregar-se ao espaço para com ele se envolver e ser inundado. Habitar um espaço é aceitar a inundação que o lugar produz no indivíduo e não o seu contrário. Todo o conteúdo performativo, desenvolvido no local, parte sempre deste acordo, de que o lugar que contém já em si uma dança (não única) por desvendar. Aos bailarinos resta-lhes interpretar e não impor os seus movimentos: uma abordagem conceptual do ciclo do nascimento e da morte e a sua relação com as várias etapas de reconhecimento do meio natural e de outras formas de vida que permita experienciar uma realidade não-física, uma tentativa de afastar o ser humano de uma posição dominadora.  

Em todo o caso, para os dois locais existe uma dramaturgia pensada e trabalhada previamente, mas que funciona, sobretudo, como uma estrutura de auxílio aos bailarinos, nunca como método pré-fabricado. Na elaboração dessa estrutura encontram-se palavras: nascimento, morte, horizontal, vertical, hábitos, culto, fragmentos... O desafio não é encontrar-lhes gestos para os ordenar na coreografia, mas antes como habitar um lugar novo com palavras tão experimentadas e fortes em representações e significados.

A pergunta que inaugura este texto pode agora encontrar diferente resposta: leva imaginação e pensamento. 

 

Joana Couto

Dinis Duarte

Som do lugar 

O som que existe num lugar é uma paisagem infinita e inevitável que, de certo modo, consagra a existência e esboça traços orientadores no mapa da consciência do aqui-presente (ou do ausente). A criação sonora de Corpúsculo, concebida para ser usufruída em simultâneo com o privilégio da imagem, não procura evidenciar o artifício da música, mas sim relevar a sonografia inerente ao lugar, aos lugares. Entendeu-se que a paisagem sonora original, captada aquando a acção performativa, não só deveria estar presente, como constituir a matéria principal da composição (se, de facto, composição o é). Em cada um dos 12 vídeos -  6 de um lugar, outros 6 de outro lugar - apenas um elemento sonoro não extraído do espaço é utilizado e advém de um conjunto de crótalos. Nos seis primeiros vídeos, referentes à presença em Pitões das Júnias, uma nota longa de frequência aguda é ouvida no princípio de cada cena. Estas notas são provenientes da fricção do crótalo por um arco. Um crótalo diferente em cada “curta”, num caminho crescente de frequência, partindo-se de um som agudo mas ainda “terreno”, até se chegar a um sobreagudo quase soprado. Para os vídeos correspondentes ao Castro de Santa Tecla utiliza-se igualmente um crótalo por vídeo,  agora percutido, repetindo-se a função de abertura e organização em crescendo de frequências. Por um lado, a utilização do mesmo instrumento confere uma identidade global à criação sonora. Por outro, ainda que utilizando o mesmo meio instrumental, uma forma de excitação do objecto dedicada a cada uma das duas geografias - fricção do arco ou pela percussão - permite sedimentar a singularidade de cada parte.  O crescendo de frequência à medida que as cenas avançam - comum às duas geografias de acção -  abre caminho ao aparecimento de uma desejável tensão, ainda que esta seja ausente de propósito discursivo/narrativo. Com o intuito de criar convergências e o seu contrário, ao longo da experiência de fruição do material sonoro e visual,  estabeleceu-se que as paisagens sonoras teriam dois tipos principais de função a partir da relação com as imagens: imersão quase-realista do lugar, que acontece quando as paisagens sonoras estão vinculadas ao momentum observado,  e uma função de desvinculação com a realidade visível, pela assincronia do som com a ação visível dos corpos.

 

Nuno Aroso