permanência e transitoriedade – entre -
O tempo não é sucessão mas espessura. Matéria feita de matérias instáveis onde coexistem acumulação e perda, duração e interrupção. Mais do que medida em movimentos, o tempo é motivo, é razão para a impermanência: altera o que toca, desloca sentidos, desestabiliza o vislumbre de estagnação. A memória, nesse contexto, não opera como conservação do passado, mas como força ativa de seleção e de deformação. Lembrar não é preservar o que foi, mas reinscrevê-lo no presente, aceitando que toda permanência é atravessada por imperfeições. O que fica não o faz por intacto, mas por insistência, como aquilo que resiste à sua própria dissolução. O transitório não é, portanto, o oposto do permanente. É a sua condição. Cada tentativa de fixação revela simultaneamente o que escapa, o que não pode ser retido nem totalmente nomeado. Entre ambos abre-se um campo de tensão produtiva, onde o desejo de guardar confronta a necessidade de deixar passar, não como renúncia, mas como gesto crítico. Este espaço intermédio — entre — torna-se lugar de decisão estética e ética. Avançar não significa prolongar indefinidamente nem aceitar a perda como destino, mas sustentar a instabilidade como método. Um equilíbrio fino, em que tempo deixa de ser linha, ruína ou fundo neutro e passa a ser matéria de escolha e de experiência estética: permanecer sem cristalizar, passar sem desaparecer.
Curadoria e
coordenação editorial
Gisela Rebelo de Faria
Nuno Aroso
ISSN:2795-5400

